Era uma vez uma rapariga que gostava de uma rapariga.
Num dia qualquer a segunda, a quem vou chamar Mia, tocou à campainha de Ana, a primeira.
Ana ficava sempre nervosa quando esperava por Mia.Olhava para todos os pormenores da casa, antes de abrir a porta, na certeza de que Mia não iria encontrar nada fora do lugar. Apesar disto, apresentava sempre uma atitude calma e descontraída, como se não se importasse.
Mia entrou e prontamente beijou Ana na boca. Prontamente também lhe pediu o que vinha buscar. Ana, que nunca sabe o que esperar perguntou: “Para onde vais com tanta pressa?”. Ao que Mia responde: “O rapazinho está lá em baixo, vamos fazer tempo para não apanharmos trânsito na volta para casa”.
O rapazinho é a nova paixão de Mia. Como se diz na minha terra e acho que em qualquer outra terra, ele é estrangeiro. Está a passar cá apenas algumas semanas.
Mia está embriagada de amor. Faz coisas inacreditáveis por ele.
Ana respondeu: “Tudo bem, se quiserem podem fazer tempo aqui e faço-vos um cházinho.”
Estas palavras saem da boca de Ana sem qualquer razão. Para sua sorte, sabe que Mia não vai aceitar, pois sabe o quanto Ana a ama. Ana ama tanto Mia, que se propõe a fazer cházinho para o seu apaixonado.
Esta é parte da história de uma rapariga que gosta de uma rapariga. Tudo sem sentido, muito sem palavras, muito sem explicação. Os acontecimentos sucedem a Mia e a Ana, como se fossem marionetas do destino.
Mia também ama Ana, à sua maneira. O beijo que lhe deu foi um beijo de amor. Um beijo de compreensão.
Elas compreendem-se. Têm uma ligação de alma.
Na maioria dos dias Ana sofre e tem pena dela mesma. Acha que merece mais, acha que isto está errado. Há mesmo dias em que se convence disto e começa a mover-se para fora, começa a sair. Assim que o faz Mia volta. Volta incessantemente. Sem nunca explicar, sem nunca dizer porquê, sem nunca, mas mesmo nunca pedir permissão. E Ana deixa.
Mia e Ana não sabem. Não sabem o que será da sua história. Não querem saber, pois é tão forte que pode tomar conta delas.
Vivem destes momentos incompreensíveis, que ninguém aprova, que ninguém entende. Mas vivem, pois não sabem ser de outra forma.
As mãos de Ana precisam das mãos de Mia. O coração de Mia precisa do coração de Ana. Elas precisam-se.
Perturba-me.
Recycling went too far??
Há 10 anos
